Feb 14 • 53M

O mundo que deve acabar

Ou a ideologização do real e as nuances do negacionismo | 53 min

 
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Casatrês editora
O podcast da Casatrês — edições manuais e outras gambiarras. Divagações na mesa de jantar ou no sofá da sala de estar. Debate em domicílio. Quase sempre sobre sociedade e comportamento. Algumas pinceladas filosóficas, outras mais literárias. Isenção da grande convicção; apego a qualquer dúvida. Gostamos do debate como gostamos da nossa casa. Por Felipe Moreno e Marília D. Jacques
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Enquanto fazemos livros, o mundo segue acabando. Sem chances de nos esquecermos que o mundo acaba, nosso trabalho, explícita ou sutilmente, de uma forma ou de outra, é afetado, perturbado e, sobretudo, norteado por essa realidade de magnitude ímpar. Por isso, também fazemos livros que falam sobre o fim do mundo, ou melhor, fim de mundos, no plural.

Há um mundo que necessita de extinção e outro que, por questão de sobrevivência, exige ser conservado. Em síntese, a tática é acelerar o fim do mundo humanocentrado que devora o mundo natural e, assim, adiar o fim do mundo natural, como nos adverte Ailton Krenak.

Relatório do Fundo Mundial da Natureza (WWF, em inglês): 70% da fauna selvagem do planeta desapareceu nos últimos 50 anos. A América Latina é a região mais afetada, porque concentra 94% do processo de extinção em massa que corre o globo. Quem nasceu no início dos anos 70 pôde coabitar um planeta com inúmeras outras formas de vida que, hoje, não estão mais aqui. Dentre as causas da devastação gigantesca e exponencial, todas relacionadas à atividade humana, a expansão do agronegócio é a principal.

No giro medonho e desafiador de um mundo que precisa acabar porque acaba com o mundo que precisa ser conservado, no que se basear? Em quais informações, dados, notícias, crenças e mitos se ancorar?

O podcast Caseiríssimo está de volta e, neste 18º episódio, convidamos nosso amigo Eduardo Fronza, que é engenheiro sanitarista ambiental (UFSC) e mestrando em agroecossistemas. A conversa entre Fronza e Moreno, além do mais, tem muitos paralelos com o livro Descivilização: Manifesto Dark Mountain, de Paul Kingsnorth e Dougald Hine, publicado pela Casatrês em dezembro passado e disponível no nosso site.

Tanto o manifesto, que foi publicado em 2009 e segue atualíssimo, quanto o bate papo do episódio, extrapolam para os aspectos subjetivos da nossa era, isto é: agimos no mundo a partir de quais convicções, crenças e mitos e, também, quais convicções, crenças e mitos nos fazem afirmar ou negar a realidade? A certa altura, a conversa parece culminar numa seguinte constatação: hoje, além do negacionismo escalafobético, geralmente situado na extrema-direita, há uma espécie de negacionismo sutil entranhado nos grupos da esquerda que, de praxe, mantêm relativa consciência ecológica.

Lançar este episódio — permeado de assuntos espinhosos, mas ao mesmo tempo esclarecedores — em plena semana de véspera de carnaval não foi proposital. Até porque, a intenção jamais será desanimar ninguém, mas apenas voltar a refletir sobre o mundo e atuar na vida a partir do ponto da realidade em que nos encontramos. O resto é história (e alguns dados) que o episódio traz.

Boa escuta e reflexões e nos vemos no décimo nono Caseiríssimo.